A estratégia perigosa que está transformando séries em ruído de fundo.
- Guto Aeraphe
- há 6 dias
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Recentemente, um artigo do crítico Thiago Stivaletti na Folha de S. Paulo levantou uma questão que vem preocupando roteiristas ao redor do mundo: a tendência das plataformas de streaming ao "dumb down", ou a simplificação excessiva de seus projetos. A justificativa apresentada é que o conteúdo precisa ser "leve" o suficiente para ser consumido como segunda tela enquanto o espectador navega no celular. Embora o diagnóstico de Stivaletti sobre a queda de densidade seja preciso, discordo que o objetivo principal seja apenas "servir de fundo" para as redes sociais. O que estamos assistindo é uma tentativa desesperada da indústria tradicional de emular a linguagem fragmentada e rasa do ambiente digital, mas de uma forma equivocada. Sempre fui um defensor dos conteúdos curtos de internet e sempre estive atento às mudanças de comportamento desses novos espectadores, ou "webespectadores", como os chamo em meu livro Webseriados, criação e desenvolvimento (2013), porém, a simplificação narrativa não é o caminho para conectá-los.
O problema central reside no fato de que a lógica do algoritmo e os objetivos comerciais das redes sociais baseiam-se em um modelo onde a prioridade é a visualização massiva e o engajamento constante para maximizar a exibição de anúncios. Esse sistema é intrinsecamente diferente do modelo de streaming, que é baseado em assinaturas. Ao tentar copiar a velocidade e a superficialidade narrativa do "scroll" infinito, o streaming abdica de sua maior força: a capacidade de imersão.
Fato é que precisamos defender o espaço da narrativa independente de sua duração, fazendo uma distinção fundamental de conceitos para evitar interpretações errôneas. Para mim, vídeos curtos são aqueles que giram em torno de 10 minutos, tempo perfeitamente suficiente para desenvolver uma narrativa estruturada, com arco de personagem e densidade temática. Na história do cinema, temos curtas-metragens de 10 ou 15 minutos que entregam camadas de reflexão que muitos blockbusters de três horas não conseguem alcançar. A brevidade, quando aliada à técnica, não compromete a inteligência da obra.
Por outro lado, os conteúdos das redes sociais eu classifico como “Vídeos Ultra-curtos”, sendo aqueles que têm como obrigação reter a atenção nos primeiros três segundos. Estes sim são os verdadeiros vilões da saúde mental e da capacidade cognitiva, especialmente quando sabemos que os jovens passam mais tempo consumindo esses fragmentos do que em ambientes que estimulem o foco. Esse adestramento”para a gratificação instantânea torna qualquer obra que exija mais de dois minutos de atenção algo "insuportável" para essa audiência.
Se permitirmos que a lógica do "ultra-curto" dite as regras de como contamos nossas histórias, selaremos o destino de uma geração que perderá a habilidade de mergulhar fundo em uma ideia.



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