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  • GUTO AERAPHE

DRAMATUGIA 360° - OS DESAFIOS DA NARRATIVA EM TODAS AS DIREÇÕES

Atualizado: 2 de Nov de 2019



Parte fundamental de todo projeto audiovisual é a escolha e o planejamento das tomadas que serão realizadas em cada cena. Não é preciso discorrer aqui sobre a importância de se escolher o enquadramento certo para cada etapa do filme. O objeto deste artigo é justamente como devemos estes tradicionais conceitos da linguagem cinematográfica a partir de uma ótica onde o espectador controla o ponto de vista. Afinal, como o diretor deve pensar o enquadramento levando em consideração que o espectador é livre para observar o que quiser dentro da cena e até mesmo sair daquele enquadramento antes imaginado.


A primeira coisa que muda quando se pensa em um projeto onde o objetivo é gravar cenas em 360° é que não temos mais que pensar qual o recorte da imagem vamos entregar ao espectador na tela e sim onde iremos colocar este mesmo espectador dentro da cena.


A partir deste pressuposto temos que levar em consideração algumas coisas como por exemplo qual o sentimento de imersão queremos dar para nosso espectador? Até que ponto o faremos se sentir como parte da cena que está acontecendo? Ou iremos torna-lo apenas um observador passivo e distante. Lembre-se que todo bom roteiro onde se pretende uma imersão em 360° deve conter os seguintes elementos:


Planos e enquadramentos



Então, vamos começar pelos enquadramentos. Por definição, um quadro é um recorte de determinado espaço/tempo que somados a outros quadros criam uma narrativa fílmica necessária para o entendimento do espectador. Através dele, e não somente por ele, guiamos o olhar do espectador para este ou aquele ponto determinado pelo diretor. Tradicionalmente os planos podem ser exemplificados nas imagens abaixo.


Mas quando trabalhamos com um arquivo em 360°, um frame exportado é desta forma:



Logo como identificar e aplicar os conceitos tradicionais de enquadramento onde todo o set está exposto? Sem dúvida o planejamento tem que ser muito mais meticuloso quando realizamos vídeos em 360°. É preciso pensar, por exemplo, que não há escolhas de lentes, já que a maioria dos equipamentos montados para este tipo de captação tem angulações próximas a 160°, um pouco mais ou um pouco menos dependendo do equipamento. Logo já podemos imaginar que um close é algo que deve ser utilizado com cuidado pois a distorção do rosto do ator ou objeto cênico é muito grande, além do mais, podemos afirmar com quase 100% de certeza, que o recurso estético da profundidade de campo é inexistente.


A regra dos terços (?)


Tradicionalmente no cinema utilizamos a famosa “Regra dos Terços” que nos orienta no posicionamento dos elementos em cena. Mas ela funciona dentro de vídeos em 360°. A resposta é não!

Imaginemos um determinado enquadramento. O diretor posiciona a câmera e os atores dentro de uma marcação respeitando as regras e tudo acontece dentro daquele quadro. Agora pense que no momento da gravação, o diretor entregue o comando da câmera para o espectador e o deixa livre para observar o que quiser dentro da cena. É exatamente isso que acontece nos vídeos em 360°. Esta liberdade do espectador coloca por terra o conceito da regra dos terços e traz um trabalho extra para toda equipe de filmagem que tem que trabalhar pensando que todo o set está em exposição na lente (ou nas lentes, se achar melhor). Sendo assim, quando trabalhar com vídeos 360°, proponho que você pense diferente, pense na “regra dos quadrantes”. Veja como fica:


Para que a disposição dos elementos do quadro funcione é preciso que na edição se escolha o ponto central do horizonte da imagem panorâmica sob o risco de que quando estiver sendo exibida, a orientação fique contrária ao quadrante que queremos exibir inicialmente ao nosso espectador. Além disso, o estudo da movimentação em cena é fundamental para dar a dramaticidade e orientar o olhar de quem estiver assistindo.


Note que na próxima figura, os quadrantes A, B e C tem o mesmo tamanho e os quadrantes D1 e D2 tem formas menores. Isso ocorre porque cada um deles é a metade de um quadrante inteiro. Lembre-se que estamos falando de uma esférica e não planar, como ocorre nos quadros tradicionais.



Enquadramentos


Outro grande problema para os novos produtores da dramaturgia em 360° é a escolha dos enquadramentos. Já vimos que, partindo do pressuposto de que a câmera é “controlada” pelo espectador, prioritariamente são os atores que caminham em direção ou não às lentes. Veremos nas figuras abaixo como fica a disposição dos enquadramentos aplicados à este novo conceito, já utilizando a regra dos quadrantes.


Note que a terminologia utilizada é diferente da tradicional. Como é difícil determinar o real enquadramento que teremos em um video 360°, eu optei por utilizar a palavra “ZONA” no lugar de “PLANO”, já que acredito expressar melhor o conceito e facilita o entendimento.


Sem dúvida esta é uma grande virada dentro dos conceitos de um processo tão bem estabelecido como é a narrativa cinematográfica. Mas é preciso lembrar que as novas tecnologias e os novos consumidores estão transformando as nossas relações com as histórias contadas através das imagens em movimento. Tudo isso dentro de um processo que, apesar de ter referências históricas no início da fotografia e do cinema, está se tornando cada vez mais individualizado e pessoal.

Então, repense a construção das paredes cênicas. Não se pergunte mais “onde colocar a câmera” e sim “onde devo colocar o meu espectador dentro da cena” E para isso, quando for pensar o seu projeto de filme em 360° faça um equilíbrio de “4 forças” fundamentais para o sucesso de seu trabalho. São eles o storytelling, gameficação, design de interfaces e redes sociais que serão objetos de um outro artigo.



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