Buscar
  • GUTO AERAPHE

O pacto entre o DIRETOR e o WEBESPECTADOR

Atualizado: 2 de Nov de 2019


Quando um espectador vê um filme numa tela de cinema ou num aparelho de televisão, ele sabe que está presenciando imagens sonorizadas e captadas por alguém e não a vida real.


 No entanto, durante a projeção, ele estará não apenas vendo, mas vivendo o filme com as mesmas emoções e idéias com que vive a sua própria experiência ou acompanha a história de alguém. Existe, assim, entre o filme e o público um pacto


Princípio da Dramatização: o pacto entre o homem e o mundo


Atualmente, em seu uso comum, a palavra drama adquiriu conotações de sofrimento, dificuldade, algo oposto à leveza da comédia. Originalmente, no entanto, o termo drama designa uma ação que se desenrola no tempo e no espaço, independente do seu gênero ou do seu final. Neste sentido, as artes dramáticas são aquelas que descrevem as ações de personagens em locais e momentos determinados, mesmo que essas ações sejam cômicas.


Vamos retornar ao sentido original do drama: o homem dá significado à sua vida, transformando-a num drama, numa história da qual ele é o personagem e que ocorre no tempo e no local onde ele vive.


A história inventada pelo homem é, portanto, uma construção dramática rumo a um final possível. E o dado mais importante dessa história é que ela passa a ser a própria vida. É dessa foram que o homem deixa de ver o final da sua existência como sendo a aniquilação, para entendê-lo como a realização de algo que ele definiu como seu objetivo. Como já sabe que vai viver e morrer, ele evita esses extremos com a expressão: “vou fazer tais e tais coisas”, “serei isto ou aquilo”. A educação, pelo menos teoricamente completa esse trabalho ao preparar as pessoas para o futuro.


A partir desse momento, a vida passa a girar não mais em torno do medo mas em razão de uma meta, ou seja, da história que a pessoa assumiu e tentará viver concretamente. Essa história, esse drama, tem um nome: e o mito, um desenho ideal da pessoa e da sua vida que orienta as ações de cada um e de todos. Como se vê, a realidade só tem sentido para o homem se puder ser enquadrada no conjunto de valores em que ele acredita e ser narrada como uma história, a sua história.


 Para compartilhar sua experiência – seu mito - com os outros, o homem utiliza diversos meios de comunicação. Dessa forma, ele reorganiza e revaloriza o tempo e o espaço, dando a eles um sentido e transformando-os em História.


É assim que a vida passa a ser para o homem, uma construção dramática. Ele vê e vive sua existência como uma história da qual ele é o protagonista.  A sabedoria popular sintetizou com perfeição esse drama ao criar a clássica pergunta que um dia alguém nos fez e nós levamos a vida inteira pra responder: “o que e você vai ser quando crescer?”.


O homem estabelece com o mundo um pacto através do qual ele canaliza suas energias para realizar qualquer coisa que justifique sua sobrevivência e transforme a fatalidade em oportunidade.


Princípio da Verossimilhança: o pacto entre o homem e sua história


Para que o homem concentre suas energias em viver sua própria história, é preciso que ele acredite na possibilidade de realizá-la. Nenhuma pessoa razoavelmente sadia despende qualquer esforço numa tarefa impossível ou pelo menos improvável. Costumamos chamar isso de realismo, mas na verdade trata-se de verossimilhança. Uma atitude realista submete-se às características e limitações do que consideramos como realidade, o mundo objetivo. A verossimilhança implica na coerência interna da própria história, que neste caso pode até não corresponder à realidade objetiva, mas precisa parecer provável, possível, em seus próprios termos. Se um homem que vive de salário mínimo disser que vai construir uma mansão para sua família, isso será considerado uma total falta de senso de realidade. Mas se ele tiver decidido que começará com um barraco, que será valorizado por certas benfeitorias e vendido a um preço superior para a compra de uma pequena casa e assim, sucessivamente, estabelecer uma estratégia de melhoria progressiva, esse objetivo – a história que ele criou pra si mesmo – passa a ter coerência, torna-se uma meta provável. Embora difícil, ela é verossímil nos seus próprios termos e o homem vive em função da verossimilhança, e não do realismo.

        

Sendo assim, a verdade é, para nós, o que consideramos verossímil, algo em que podemos acreditar, aceitar como real. A viagem do homem à Lua é um fato comprovadamente verdadeiro, mas algumas pessoas idosas não acreditam nele porque para elas é impossível (ou inverossímil ) de acontecer.

       

 Podemos dizer que um acontecimento é verossímil quando parece verdadeiro. Ele é tão real que as pessoas que o presenciam ou assistem à narração dele, além de o considerarem possível – ou provável – sentem as emoções provocadas por um acontecimento verdadeiro. Para nós, a verdade inclui o que é verossímil.

        

As pessoas agem, têm emoções e reações físicas de acordo com aquilo que aprenderam com verdade. Os conceitos de cada uma são verossímeis aos seus próprios olhos.

       

 A verossimilhança é importante porque é a base da credibilidade: vivemos em função daquilo em que acreditamos e acreditamos no que é verossímil.Isso vale para a vida de um homem comum, a carreira de um líder político, a permanência de uma religião ou o sucesso de um filme.

        

Ao criar sua história portanto o homem estabelece um pacto consigo mesmo; ele aceita dedicar suas forças para realizar seu mito, desde haja uma chance de torná-lo real, transformando assim o provável em possível.

        

Ao fazer seu filme, o diretor sabe que está selecionando / inventando cenas, imagens, sons. Mas precisa cumprir sua parte nesse pacto: seu filme deve ser verossímil, isto é, o diretor precisa convencer o espectador de que sua obra – que todos sabem que não é a realidade – transmite algo de verdade. Para convencer os outros, é preciso que ele próprio esteja convencido disso. Ele precisa crer na sua própria ficção.


Princípio dos Referenciais: o pacto entre o homem e a cultura


“Todo caráter dramático do que acontece em cena repousa na sua relação com o que está fora de cena”

       

 Todo mito pessoal ou coletivo tem como ponto de partida o local, a época e a sociedade em que o homem vive. A pesquisa e a descoberta da redondeza da terra tiveram sentido num momento e numa circunstância em que ser era um problema a ser resolvido. Se alguém quiser pesquisar esse assunto num país desenvolvido da atualidade, será considerado no mínimo ridículo.

        

Quando um homem estabelece para si um objetivo (quando inventa sua história) ele trabalha sempre com os referenciais da sua comunidade. Esses referenciais são culturais, ou seja, são convenções criadas pelos seres humanos na sua convivência social. É por eles que podemos nos situar, nos localizar para criar e viver nossa história. Sentimo-nos autorizados a criar e viver uma história pessoal porque sabemos que ela está ancorada em certos padrões sociais que lhe dão validade.

       

 Portanto, o que assegura a verossimilhança de uma história – de um mito – é a sua relação com os referenciais de uma sociedade e de uma época determinadas. De nada adianta alguém inventar um história de vida que, d antemão, ele sabe que não conseguirá realizar no tempo e no espaço em que vive ou pode viver. Essa história, esse mito pessoal, precisa ter sempre alguma relação com a mitologia da sociedade em que o indivíduo vive. Ela adquire sentido na medida em que ele acredite na efetiva possibilidade de ela acontecer, e ela acontecerá, sempre num local e num momento específicos.

        

O intercâmbio incessante entre as histórias e experiências pessoais com os referenciais coletivos, realizado através dos diversos meios de comunicação e informação, assegura o dinamismo dos sistemas culturais em cada época e sociedade. Aqui o homem estabelece um pacto com a cultura em que vive: ele constrói um história que, em princípio, pode-se tornar-se verdadeira não somente em seus próprios termos, mas também porque é coerente com os termos e a dinâmica de um sistema cultural. É assim que o possível se transforma em real.

12 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo