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  • GUTO AERAPHE

A QUEBRA DA 4ª PAREDE VIRTUAL

Atualizado: 2 de Nov de 2019





"Então, caso façais uma composição, ou caso representeis, pensai no espectador apenas como se este não existisse. Imaginai, na borda do teatro, uma enorme parede que vos separe da plateia; representai como se a cortina não se levantasse".


Esta citação, retirada do livro Estética Teatral: textos de Platão à Bertold Brecht, 2004, é um ótimo ponto de partida para iniciarmos uma grande discussão. Com o advento dos filmes captados com a tecnologia de câmeras em 360º, como fica a relação entre o espectador e os personagens, uma vez que o ponto de vista de quem antes estava "protegido" pela chamada quarta parede teatral, torna-se uma escolha dramática, a partir do pressuposto de que o diretor tem a liberdade de levar o espectador para dentro da cena ou em qualquer outro ponto que lhe seja conveniente.


Antes de aprofundarmos no assunto, vamos entender de forma rápida qual o significado desta expressão "quarta parede". Nada mais é do que uma barreira imaginária que fica entre o espectador e o drama encenado, seja no teatro ou em uma peça fílmica, onde a plateia aceita, de forma passiva, que aquilo que está sendo apresentado é de fato um evento real ao qual deve ser assistido. A este acontecimento, deu-se o nome de "suspensão da descrença" .


No entanto, não podemos nos esquecer que a cada peça dramática realizada, seja na literatura, teatro ou cinema, o espectador faz, junto com os agentes da dramaturgia, um "contrato" onde a verossimilhança é ponto fundamental para o sucesso da obra. E entendamos aqui verossimilhança não como a semelhança dos elementos da obra com o mundo real, mas a credibilidade que esses elementos demonstram em relação ao mundo de ficção apresentado. Este conceito é fundamental para a boa aceitação da metalinguagem apresentada na ficção.


Todos estes conceitos são necessários para que tragamos à tona uma teoria teatral que, apesar de ter sido escrita no século passado, no meu entender é parte fundamental para concebermos uma nova dramaturgia foca em conteúdos de 360º. Quando Bertold Brecht concebia seus primeiros escritos sobre o seu teatro épico, não imagina que o efeito de distanciamento ou de estranhamento (Verfremdungseffekt ou V-Effekt, em alemão) por parte do espectador seria parte fundamental desta nová tecnologia.


Para Brecht, o ator não busca identificação plena com a personagem. O cenário expõe toda sua estrutura técnica, deixando claro que aquilo é teatro, e não a realidade. O enredo se desenvolve sem um encadeamento linear cronológico entre as cenas, de modo a poder misturar presente e passado, procurando evitar o envolvimento do ator e do espectador na trama, sempre com o intuito de provocar a reflexão e de despertar uma visão crítica do que se passa, sem levar ao desfecho dramático e natural. "Estranhar tudo que é visto como natural", afirma Brecht. O autor estava ciente de que derrubar a quarta parede iria encorajar a plateia a assistir a peça de forma mais crítica. Há quatro tipos fundamentais de "quarta parede".


O recurso da quebra da quarta parede é muito usado no teatro improvisado, onde a plateia é convidada a interagir com os atores em certos pontos, como para escolher a resolução de um mistério. Nesse caso, os espectadores são tratados como testemunhas da ação em andamento, tornando-se "atores" e atravessando a quarta parede. O recurso também é utilizado por muitos para incitar a plateia a ver a ficção sob outro ângulo e assisti-la de forma menos passiva, e este talvez seja o ponto fundamental desta nossa discussão. Afinal, em um vídeo 360º, temos que definir, desde o primeiro segundo de cada cena, onde e como o espectador estará inserido na cena. Não há tempo para o "convite" e o estranhamento deste ponto de vista pelo espectador pode colocar tudo a perder caso ele não aceite como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção, mesmo que elas sejam fantásticas, impossíveis ou contraditórias. É a suspensão do julgamento em troca da premissa de entretenimento. Segundo Fernando Peixoto, "Brecht recusa o espetáculo como hipnose ou anestesia: o espectador deve conservar se intelectualmente ativo, capaz de assumir diante do que lhe é mostrado a única atitude cientificamente correta - a postura crítica".


Obviamente não vamos nos prender a todos os conceitos que ele brilhantemente propôs em sua obra, dada as especificidades desta nova forma de captação que é objeto deste estudo. Para entendermos melhor, vamos observar uma tabela abaixo onde é possível ver a diferença entre a dramaturgia tradicional e as novas formas de se trabalhar com a direção de cena em produções de 360º.



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